Capítulo 1
Capítulo 1 – Dois Estranhos na Cafeteria
O outono chegava à cidade, trazendo consigo um vento fresco e folhas alaranjadas que dançavam pelas calçadas. A cafeteria Avelã & Canela estava especialmente aconchegante naquela tarde, com o aroma de café fresco e bolos recém-saídos do forno pairando no ar.
Amélia, de 35 anos, estava atrás do balcão, decorando um bolo de chocolate com mãos firmes e precisas. Antes de se tornar confeiteira, ela havia sido investigadora especial, desvendando casos que outros consideravam impossíveis. Mas os anos de trabalho sob pressão a deixaram exausta, e ela trocou os arquivos criminais por açúcar e baunilha. A vida agora era mais doce—literalmente.
Na mesa do canto, Tom, de 38 anos, esfregava os olhos cansados enquanto corrigia uma pilha de provas de matemática. Seus alunos do ensino médio o chamavam de “Professor T.” e adoravam suas histórias absurdas—ninguém desconfiava que, em outra vida, ele havia sido o temido “Tomás Vento Negro”, chefe de uma organização que mantinha governos em alerta. Mas o peso do passado o consumiu, e ele fugiu, assumindo uma identidade nova. Agora, ensinava equações e tentava esquecer os erros que cometera.
Foi o destino—ou talvez o cansaço—que fez Tom levantar para pegar outro café e, sem perceber, esbarrar em Amélia, que carregava uma bandeja de croissants.
— “Perdão!” — Tom disse, segurando-a gentilmente pelo ombro para evitar que caísse.
— “Não se preocupe, eu já sobrevivi a coisas piores” — ela respondeu, com um sorriso irônico, enquanto se ajeitava.
Seus olhares se cruzaram por um segundo a mais do que o necessário. Havia algo familiar naquela troca, como se ambos reconhecessem, mesmo que inconscientemente, que ali estavam duas pessoas que já haviam visto demais.
— “Você é nova aqui?” — Tom perguntou, tentando puxar conversa.
— “Hmm, nem tanto. Eu sou a confeiteira. E você? Nunca te vi por aqui antes.”
— “Sou professor. Costumo vir quando a escola me deixa à beira de um colapso nervoso.”
Ela riu, um som suave e genuíno.
— “Então você também trocou uma vida de caos por algo mais… pacífico?”
Tom franziu a testa, intrigado. “Como ela saberia?” Mas antes que pudesse perguntar, Amélia continuou:
— “Ah, é só que você tem cara de quem já viveu coisas intensas. Eu também.”
Ele sorriu, quase como um desafio. “Interessante.”
Nas semanas seguintes, Tom começou a aparecer na cafeteria não só pelos cafés, mas pelas conversas. Amélia descobriu que ele adorava romances policiais e tinha um gosto horrível para filmes de terror. Tom, por sua vez, ficou fascinado pela forma como ela descrevia doces—como se cada bolo tivesse uma história.
Nenhum dos dois estava procurando romance. Amélia nunca se interessara por isso, e Tom já tinha tido relacionamentos demais—todos baseados em poder ou medo. Mas ali, entre xícaras quentes e risadas contidas, eles encontraram algo raro: compreensão.
Uma noite, enquanto fechavam a cafeteria juntos (Tom insistia em ajudar a limpar as mesas), Amélia olhou para ele e disse:
— “Sabe, eu nunca me importei muito com… aquela coisa que as pessoas chamam de paixão. Mas gosto da sua companhia.”
Tom acenou, aliviado.
— “Eu também. E depois de tudo o que vivi, companhia é o melhor que alguém pode me oferecer.”
E assim, sem pressa, sem drama, os dois começaram a construir algo que nem nome precisava ter—apenas dois estranhos que, por acaso, se encontraram em uma cafeteria e decidiram que gostavam de estar um perto do outro.
E, no fim das contas, isso era mais que suficiente.
Continua…